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Clayton Rocha - Trajetória

    Artigos

    Um Café, duas crônicas e muitas cadeiras

    Crônicas de José Luis Marasco e José Gomes Neto.

    Publicado 16/03

     
    NOTA DO VAZ: Outro dia, passando já bem tarde pelo Café Aquários, não pude deixar de admirar a cena inusitada: o Café já fechado, com as cadeiras sobre o balcão, que pareciam descansar depois de uma árdua jornada de trabalho. Fotografei a cena para usá-la em alguma oportunidade já  que era uma visão rara do Café que, sempre lotado, agora dava lugar apenas para as suas cadeiras. Quando me veio a ideia de uma crônica, pensei logo no Marasco, o filho do "seu" Itamar, que foi por muito tempo dono do então Café Nacional, depois, Café 35, depois Café Aquários. Ele aceitou o desafio de pronto e, escrita a crônica, comentou-a com o José Gomes Neto, que tem se revelado um ótimo cronista da cidade. Pronto, hoje recebi as duas crônicas que publico juntas, com a mesma fotografia. Uma nos tons originais e outra revertida para o preto e branco. Sirvam-se, elas estão à mesa.

     

    O Silêncio das Cadeiras

    José Luís Marasco C. Leite

     

    Ali estão elas em repouso.

    Cumpriram, mais um dia, o papel que lhes incumbia (a causa final de suas existências): sustentar corpos, que sustentam cabeças, que sustentam ideias.
     
    Ficam, de regra, reunidas em torno de mesas, onde se formam grupos de pessoas que falam dos mais variados assuntos.
     
    Suportam pesados corpos que, às vezes, carregam pesadas consciências. Ouvem tudo o que ali se diz; sabem de paixões, de traições, de amores espúrios, são testemunhas de mirabolantes teses científicas, e, também, das mais chulas impressões (geralmente pronunciadas acerca de mulheres que desfilam nas calçadas, vistas através das amplas vitrines que circundam o espaço onde se espraiam).
     
    Veem, com freqüência, manifestarem-se infidelidades a acertos políticos trabalhosamente costurados. Conhecem inúmeras declarações de compromisso que, no dia seguinte, já estarão esquecidas. Flagram insinuações de interesse amoroso, de onde jamais se poderia esperar que brotassem. Já viram comprometedores roçar de pernas e aproximações inusitadas.
     
    Praticamente, sabem de tudo o que se passa na cidade e mesmo no mundo. Afinal, ali, onde elas habitam, se faz, diariamente, em um grupo ou outro, o resumo dos acontecimentos locais, nacionais e internacionais.
     
    Já conheceram planos de paz para o Oriente Médio. Ouviram veementes acusações às interferências americanas no Afeganistão. Houve quem infundisse nelas sentimentos de ódio a ditadores árabes, e, já em outro momento, assumiram um ânimo de revolta, em face de exortações veementes, contra as sempre tendenciosas resoluções das Nações Unidas. Perceberam, também, a relativização de julgamentos sobre fatos. No geral – sabem elas bem –, o aficionado por um time ou por uma grei partidária sempre desculpa nos seus o que não perdoa nos outros.
     
    São, seguidamente, arrastadas de uma mesa à outra, o que lhes rouba, em tais ocasiões, a possibilidade de formar um juízo melhor sobre o assunto que, antes, estavam apreciando. Pior, em alguns casos, no novo grupo formado, ocorre de virem a tomar conhecimento de argumentos inteiramente dissonantes aos que, no anterior, ouviam. Refletem sobre a relatividade de tudo e chegam a admitir que, afinal, ninguém tenha razão sobre nada.
     
    Confundem-se. Têm sobradas razões para pensar que as teses que ouvem, notadamente quando se prendem a questões locais, estão profundamente vinculadas a interesses que, vez e outra, acabam sendo mencionados às claras.
     
    Algumas, menos contidas, imaginam quão interessante seria interferir nos assuntos que ouvem. Criariam – parece-lhes certo – a maior confusão: desmentiriam fatos; provocariam desacertos e inimizades; revelariam segredos; anunciariam paixões insuspeitadas...
     
    Talvez, porém, se assim fizessem, desmanchariam a atração que aquele lugar exerce sobre tantos: um centro de prosa descomprometida, um parlatório democrático, uma tribuna aberta à palavra de qualquer um, um lugar do contraditório, da discussão, um espaço tanto para a divergência como para a convergência, um recanto próprio para expressar paixões.
     
    Para tantos, também, um refúgio em face da dureza da vida doméstica, com suas desavenças, desencontros e malquerenças. Para outros, bem ao contrário, o preenchimento do amargor da falta de uma vida doméstica. Um lugar para deixar o tempo passar...
     
    Agora, em providencial e indispensável silêncio, elas aguardam a limpeza do lugar, para a rotina de outro dia, no qual tudo se repetirá, como ocorre há décadas, naquela tão essencial instituição pelotense, o Café Aquário.
     
     
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    Cadeiras Vazias

     
    José Rodrigues Gomes Neto
     
     
     
    As cadeiras vazias sobre as mesas dos cafés de uma cidade, encerram, em si, silenciosamente, muitas histórias.
     
    O Café Aquário é um tesouro nesse campo.
     
    Se elas falassem, por certo, em suas conversas noturnas estariam comentando tudo que ouviram durante o dia.
     
    Teriam assistido ao início de várias relações amorosas. Saberiam, com certeza, quem queria conquistar quem (será que tomariam partido?).
     
    Garanto que elas nutririam maior simpatia pelos mais magros, pois não lhes pesariam tanto.
     
    Testemunhariam também os rompimentos, quando uma delas esvaziaria e ficaria curiosa se o que ouvira era mesmo o fim, ou ainda, quem sabe, ficara margem para um recomeço.
     
    Mas, em um café, não há limitações para a variedade de assuntos.
     
    Política, então, está sempre presente.
     
    Quantos acertos e desacertos teriam acontecido sobre elas?
     
    E traições?
     
    Imaginem se elas pudessem contar, quanta gente, que hoje nos merece fé, ficaria em maus lençóis.
     
    Aquela vez que ficou acertado entre dois líderes políticos, os principais da cidade, que um apoiaria o outro. Lembram?
     
    Nem bem o que receberia apoio levantou-se da cadeira, deixando-a ainda quente, e o apoiador chamou um político alternativo, que seria a terceira força, e convidou-o a cerrar fileiras com ele na próxima eleição. O acerto logo se concretizou, pois esse arranjo alijava a segunda força e o traidor assumiria a hegemonia eleitoral no município.
     
    As cadeiras, que tudo viram e ouviram, teriam ficado decepcionadas.
     
    Será que elas comentariam, entre si, que os humanos não obedecem às leis que eles mesmos criaram?
     
    Todas elas saberiam de tudo, já que a cada dia eram colocadas em lugares diferentes.
     
    Futebol seria considerado por elas um assunto leve e divertido, até porque não fariam parte das torcidas.
     
    Ficariam confusas com as teses defendidas pelos intelectuais que se reúnem diariamente no Café, ao meio dia. Como interpretariam as questões políticas, filosóficas ou cinematográficas, assuntos que tanto atraem a atenção deles?
     
    Mas, no final do dia, quando fossem para cima das mesas e balcões, apesar do alívio que sentissem, guardariam uma certa melancolia, já que lhes restaria, apenas, a companhia das outras, sem mais ninguém.
     
    Era, assim, o instante em que elas lembrariam daquelas pessoas que ficam sozinhas, com seus pensamentos, e que, às vezes, em voz alta, queixam-se de seus destinos, de seus dissabores e, não raro, de sua solidão.
     
    Para quem vê de fora, a posição delas, em repouso, em cima das mesas, desperta, igualmente, curiosidades. O que teria acontecido sobre elas, durante o dia?
     
    Quais frustrações ou momentos de alegria teriam presenciado?
     
    Cada um, a partir de suas idiossincrasias, elaboraria hipóteses e encontraria as respostas.
     
    Um pouco, quem sabe, do que nos sugere a famosa Cadeira Vazia que foi ocupada por Francisco Alves e está lá, no restaurante Gambrinus, em Porto Alegre, a lembrar toda uma época que o tempo deixou para trás.

     

    Leia mais sobre: Artigos, José Rodrigues Gomes Neto, José Luis Marasco

    Fonte: José Gomes Neto e José Luís Marasco C. Leite. http://velhaguardacarloskluwe.blogspot.com/

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    Comentários (4)

    feito em 19/03/2012 12:17:47

    Excelente comparação, Ernani. É a nova versão daquela velha piada: Ninguém notou a falta dos "assessores" que o leão, que havia fugido do circo, comeu numa "repartição pública", só perceberam que havia algo errado quando ele papou a "pessoa que fazia o cafezinho". Podemos imaginar o Café fechado por dois anos?

    feito em 18/03/2012 08:42:04

    Conheço por demais as cadeiras do Aquários, pois trabalho em frente e por ali passo diariamente. O que me chama a atenção são as pessoas que ali ficam quase o dia inteiro. Batem o ponto nos três turnos. Vendo-as ora em acaloradas discussões ora, "solitas", sentadas junto aos janelões do Aquário, penso que não têm um lar, uma vida caseira, alguém que lhes espere ao fim da jornada de trabalho. Buscam preencher o vazio da solidão em que vivem. Fechem o Sete de Abril, mas não fechem o Aquário! Ernani.

    feito em 16/03/2012 23:10:45

    Bem, Clayton, imagino que passaste um dos cafés comprados n'A Brasileira, do Chiado, ou no Grecco, da Condotti. Não imagino nada menos do que isso...
    LC Vaz

    feito em 16/03/2012 19:28:23

    Li em casa! Olhei para a cozinha: as cadeiras também estavam vazias, mas em seus lugares habituais. Pensei então: o que faço para homenagear os três? Aqueci água e tomei 3 cafezinhos caseiros, pensando no talento de 3 amigos! Pronto, o Vaz, o José Gomes e o Marasco estavam homenageados à altura. Clayton.

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