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Clayton Rocha - Trajetória

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    Tropeiro e Carreteiro

    Sei que os meus amigos, os lá do Treze Horas, e principalmente os do café, vão caçoar de mim. Mas não importa, vou contar mesmo assim.

    Publicado 02/04

    Sei que os meus amigos, os lá do Treze Horas, e principalmente os do café, vão caçoar de mim.

    Mas não importa, vou contar mesmo assim.

    Já tropeei e carreteei. Sim, ajudei a trazer uma tropa da estância Pedra Só (sempre achei esse nome lindo) que existe até hoje, creio, e  fica em Pedro Osório, até ao Passo dos Carros.

    Eu não teria mais do que doze anos de idade, portanto foi em 1946,  e meu pai, que comprara os animais, levou-me para essa aventura.

    Que bom que ele fez isso porque não o tive por muito tempo mais.

    Ele, ao convidar-me, disse: vamos ver se saíste ao teu avô materno, que iniciou sua vida como tropeiro.

    O meu avô, naquele tempo, lá pelos idos de 1890, andava por grande parte do sul do estado negociando com gado, que comprava dos fazendeiros e vendia para as charqueadas de São Gabriel, onde era abatido. Ele tropeava, pessoalmente, acompanhado de ajudantes, por distâncias que chegavam a duzentos quilômetros.

    Além disso, antes de que a estrada de ferro entre Bagé e São Gabriel fosse construída, ele transportava o charque em carretas de boi, até Bagé, de onde iam para Rio Grande e Pelotas pela linha férrea que fora inaugurada em 1884(In Episódios do Ciclo do Charque, pag. 268 – Alvarino Marques – Editora Gaúcha Ltda.).

    Então, meu avô foi tropeiro e carreteiro, profissões que tiveram papel preponderante no desenvolvimento da região.

    Essas atividades, exercidas por ele com denodo e determinação, propiciaram-lhe bons lucros que foram suficientes para adquirir, em São Gabriel, a Xarqueada Santa Brígida, em 1910, (aonde toda família foi morar). Transformou-se, em pouco tempo, em um dos maiores charqueadores (chegou a matar entre 30.000 e 40.000 bois por safra) do Rio Grande do Sul (ob.cit. pág. 272), o que lhe valeu, pelo papel que teve na indústria do charque, o título de Coronel da Guarda Nacional, concedido pelo presidente da república.

    Apenas a título informativo: “entre 1920 e 1931, São Gabriel concorreu com 9% do total das matanças para o charque, no Estado” (ob.cit. pág. 275). Considerando o número de charqueadas que havia no Rio Grande do Sul, esse percentual era por demais expressivo.

    Essa digressão, sobre meu avô, mostra que eu trazia e trago, no sangue, alma de tropeiro e carreteiro.

    Voltando à minha tropeada: quando chegamos ao rio Piratini, o gado foi jogado na água e atravessou nadando, acompanhado por nós que nadávamos ao lado dos cavalos (afora isso, tudo o mais é verdade. De fato, atravessamos, eu e meu pai, em uma balsa...).

    Mas a caminhada foi uma emoção. Na primeira noite, pernoitamos na fazendo de um tio da minha mãe – Manoel Ferreira da Silva - no Paço do Ricardo. Na ocasião ele era dono também da Charqueada São João em Pelotas, que já estava desativada Embora eu tivesse querido dormir no galpão, meu tio, Boaventura Osório Ferreira da Silva -  não deixou, levou-me para dentro de casa.

    Junto conosco, viajava uma carreta de bois, com toldo, carregando provimentos para a jornada, onde dormimos na segunda noite, e, às vezes, eu, para descansar, viajava nela

    No terceiro dia, chegamos ao nosso destino. Era um final de tarde, uma tarde de inverno, daquelas que deixam no horizonte uma visão formidável de um grandioso incêndio. As tonalidades fortes de vermelho/amarelo das nuvens distantes, contrastavam com o verde/claro, cor que somente no sul, no fim do dia, aparece no céu, formavam um quadro que pela beleza sugeria a presença de Deus.

    Meu pai festejou a chegada, dizendo: chegamos Giuseppe e eu então lhe perguntei – por que me chamas assim – e ele respondeu: por causa de um compositor de ópera, Giuseppe Verdi.

    Lembrei-me, então, das noites em que juntos, num rádio de bateria, ouvíamos a temporada lírica do Teatro Colón de Buenos Aires.

    Desculpem-me. Pediram-me que eu escrevesse sobre tropeiros e carretas e acabei contando o meu lado tropeador e carreteiro.

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    Fonte: José Rodrigues Gomes Neto

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    Comentários (7)

    feito em 07/02/2016 19:26:34

    Gostaria de saber se alguém poderia me informar sobre a charqueada de Boaventura Ferreira da Silva em Pelotas e em São Gabriel.
    Agradecida se for informada,
    Beatriz Leal Valle

    feito em 07/04/2012 21:13:20

    Meu bisavô teve um comércio e POUSO de tropas no CAPÂO DO DESCANSO (depois chamou-se Agente Gomes) entre C do Leão e o P. das Pedras, o que chama a atenção é que as mangueiras ( currais) eram redondas ( circulares) e a cerca era feita de torrões.
    O primeiro transporte de GADO por trem no RS foi 1889 entre estação PIRATINY ( depois chamou-se Eng. Ivo Ribeiro, Olimpo e hoje é Pedro Osório) e o Capão do Descanso por causa da grande enchente ( O Piratini transbordou).
    Professor conte mais outra...
    Zésouza.

    feito em 04/04/2012 02:10:58

    Sugiro que se escreva e se publique um bom relato sobre a campanha do Rio G do Sul, mais fotografias históricas, sobre tropeiros e carreteiros que estão tão vivos em nossa memória. Quem se habilita a isso? Quem sabe o Nauro Júnior, que ainda hoje falou de fazendas, gado e cavalos no facebook. Mauro Braga Nunes

    feito em 03/04/2012 23:56:28

    Não há, que se saiba, nada, absolutamente nada que sirva para homenagear, na campanha do Rio Grande, esse símbolo dos Pampas, o tropeiro. Espera-se que o nosso prefeito, o de Bagé, seja capaz de pensar com muita seriedade neste assunto. Carlos Guilherme Azambuja, Bagé.

    feito em 02/04/2012 19:14:26

    Os tropeiros passavam pela estrada de chão, no interior do Cerrito, tocando a sua boiada, e pediam para ocupar um galpão da nossa propriedade rural, onde pernoitavam. Eu, gurizote, observava aquilo tudo, os ponchos, o fogo de chão que eles faziam, o carreteiro em panela de ferro, as longas conversas deles, o cigarro de palha, e tudo o mais. Ainda hoje, recordando, empolgo-me com o velho Rio Grande, suas estradas de chão, Lua cheia refletida na boiada, o trotar dos cavalos, aqueles ponchos escuros, e toda a poesia que envolve a figura do antigo tropeiro dos pampas! Por tais razões, amigo José, teu texto também me devolve, saudosista, ao rico passado pedrosoriense. Clayton Rocha.

    feito em 02/04/2012 17:54:31

    Pô, o Zé não merecia!
    Colocaram como ilustração de sua bela crônica uma foto de um filho do Getúlio Vargas, contra quem ele tem a maior bronca!
    Marasco

    feito em 02/04/2012 17:23:25

    Chamem o Jayme Monjardim! O filme O Tempo e o Vento deverá, obrigatoriamente, ter uma "Parte II" O Tempo, o Vento e o Carreteiro...
    Mas, falando sério, que bela jornada deve ter sido essa, aos 12 anos... realmente para não esquecer!
    LC Vaz

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