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Mala Direta

Clayton Rocha - Trajetória

    Opiniões

    Troca de cartas

    José Gomes Neto e Jornalista Flávio Tavares trocaram correspondência.

    Publicado 25/11

     

    Caro Jornalista Flávio Tavares.

    Sou um velho professor de Direito Penal aposentado, da Universidade Federal de Pelotas.

    Fui um adepto da Revolução de 64, hoje chamada de golpe por muitos dos “corajosos” daquela época. Nem acho correto chamar aquele movimento de Revolução, talvez fosse mais próprio denominá-lo Contra-Revolução. Sim, isso porque os líderes políticos de então pretendiam fazer do Brasil uma republica socialista marxista, com o quê a maioria da população não concordava.

    E pretendiam fazer de uma forma totalmente desorganizada, através da implantação da anarquia, para ver, depois, como ficaria. Minha simpatia ao movimento cessou no final do mandato de Castelo Branco, pois ele se deixou levar por um caminho equivocado e não pôde controlar a implantação de um regime de exceção. O dele não era, pois uma Revolução legítima é fonte de Direito. Foi uma ditadura meio fora dos padrões, pois mudavam o chefe de plantão, e a oposição, pelo seu comportamento, legitimava a ação de quem comandava.

    Se Castelo tivesse começado um mandato inteiro de cinco anos, teria realizado eleições livres.
    Causa-me estranheza as pessoas  atacarem esse período, sendo, como são,  quase sempre,  getulistas,  o único, penso, ditador civil da América do Sul. E mais:feroz.

    Tudo isso, já dá para ver, e não tem a mínima importância, pois importante não sou:  somos pessoas gravitando em órbitas diferentes, na esfera política. Mas, naquilo que verdadeiramente interessa, creio, estamos na mesma canoa, qual seja, o repúdio total e absoluto à corrupção, tanto material como moral.

    Conheci um padre francês, pároco em Capacabana – Pierre Secondi – amigo do meu sogro. Ele me fez uma revelação interessante: segundo afirmou,  nos anos cinqüenta, ao tempo do famoso Ronaldo, assassino de Ida Curi, lá no bairro,  habitado então por cem mil pessoas, havia trezentos jovens formando a chamada juventude transviada. Apesar de poucos, chamaram a atenção de todo o Brasil.
    Pois bem, a classe política, em sua imensa maioria, é boa. A minoria forma a atual “juventude transviada”. São aqueles trezentos de Copacabana ou os “aloprados” do Lula.

    Assim, tenho esperança. Escrevo-lhe para convencê-lo de não abandonar o combate à corrupção, conforme anunciado na Zero Hora de 16 de outubro. A despeito de nossas divergências do ponto de vista ideológico(pelo menos assim me parece), freqüento suas crônicas e as aprecio.

    Saudações esperançosas.

    José Gomes Neto

     

    Resposta de Flávio Tavares


    Caro Prof. José Gomes Neto

    Sua carta emocionou-me. A demora em respondê-la deve-se unicamente à minha saúde a meus afazeres, pois estive totalmente atrelado à escritura de um novo livro, que só concluí cinco dias atrás, já após expirarem todos os prazos concedidos pelo editor.

    Permita-me, porém, já de entrada, discordar de um detalhe do que diz: ao contrário do que afirma, não estamos em campos ideológicos opostos. Estamos no mesmo caminho e, ouso afirmar, estivemos sempre no mesmo lado. Só há uma ideologia - a da ética. O resto são apenas roupagens.E, pelo que vejo, estamos na mesma postura.

    Que, em Pelotas, o professor de Direito Penal tenha aplaudido o golpe de 1964, ou a Revolução ou Contra-revolução de 1964, e que eu --na época em Brasília-- tenha ficado contra, define apenas uma postura circunstancial, alheia a nós próprios. Tão alheia a José Gomes Neto quanto a Flávio Freitas Tavares. Se nos conhecêsemos naqueles anos, talvez discordássemos da interpretação, mas concordaríamos na essência da análise.

    Ademais, aqueles foram tempos da Guerra Fria, de uma exacerbação que pouco tinha a ver conosco, e alimentada apenas pelos desejos de dominação planetária, dos Estados unidos de um lado e da União Soviética, de outro. Ficamos no meio, nós os povos dos países periféricos ou do Terceiro Mundo, espremidos entre a impotência, o medo e os preconceitos de lado a lado.

    Mas isto é tema para longa conversa pessoal. Quero dizer-lhe, mais do que tudo, que me senti gratificado com sua carta. Em tudo o que escrevo, procuro transmitir posições, numa tentativa de fazer com que se volte a pensar na ética profunda, a ética da prática, dos atos pequenos ou grandes do nosso quotidiano. Mas atos, não palavreado oco.

    Para quem escreve, só há uma gratificação - ser entendido por quem nos lê. Mesmo que quem nos leia discorde do que dizemos, mas se nos entender na discordância, já nos gratificamos. O fundamental é, outra vez, debater e dialogar, para vencer essa exaustão que a corrupção da sociedade de consumo cria a cada dia nos hábitos de toda a sociedade. Obrigado pelo apelo que me faz: de não esmorecer na denúncia da corrupção. Só posso lhe agradecer pelo que me disse e pela forma com que me disse.

    Espero que continuemos em contacto. Sou do Rio Grande do Sul e conheci Pelotas nos anos 1950, em meus tempos de vida universtária (formei-me em Direito na PUC de Porto Alegre), quando presidia a UEE e visitava a FAP aí na Princesa do Sul. Estou há tempos fora do nosso Estado e, há oito anos, moro em Búzios, no litoral do Estado do Rio de Janeiro. Enquanto eu não retornar a Pelotas ou não receber a sua visita em Búzios, restar-nos-á o correio eletrônico, pelo menos.

    Com um abraço, afetuosamente

    Flávio Tavares


     

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    Comentários (4)

    feito em 30/11/2011 18:12:38

    Tinha 10 anos quando aconteceu o golpe (ou revolução,como queiram) de 1964. Meu pai era conservador,favorável aos militares. Eu, apesar da idade, admirava o carisma de Brizola e, durante muito tempo,nutri uma paixão pelo líder trabalhista. Era meu ídolo até o dia em que não resistiu e apoiou Lula, a quem havia chamado de "sapo barbudo" que deveria estudar para melhor se preparar para a política. Nesse momento percebi que meu ídolo tinha pés de barro e a decepção foi grande. Flávio Tavares, jornalista que conviveu íntimamente com Brizola, é hoje um dos meus ídolos. É uma dessas raras figuras da esquerda que evoluiu e tem a humildade da autocrítica. Tem muitas histórias para contar. Quando visitar Pelotas, gostaria de conhecê-lo. Pedro Marasco

    feito em 27/11/2011 23:38:35

    Excelente a matéria. A corrupção é uma das faces pela qual se pode visualizar a ética. Porém, há outras que dizem respeito à concepção de mundo, de sociedade, pelas quais as pessoas podem divergir ideologicamente. Não consigo ver o Prof. José Gomes e o Jornalista Flávio Tavares como pertencendo ao mesmo campo ideológico.

    feito em 26/11/2011 09:23:45

    Sem ranços ideológicos - que no mais das vezes não significam nada no que diz respeito ao que a pessoa é ou faz - percebo que pode haver verdadeira comunicação, entre os que são bem intencionados.
    Marasco

    feito em 25/11/2011 18:36:06

    De altíssimo nível o encontro de José Gomes Neto e Flávio Tavares, por cartas. A partir da publicação de ambas, aqui no Site, vou providenciar uma boa conversa nossa com o Flávio, pelo rádio, via Debate Pelotas:13 Horas. Eu, pessoalmente, também muito admiro o jornalista Flávio Tavares. Clayton Rocha.

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