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Clayton Rocha - Trajetória

    Ramacés Hartwig

    Ó morte, onde está o teu aguilhão?

    Desde o momento em que o Ser Humano (homo sapiens) começou a pensar, analisar, ponderar e refletir sobre o mistério da vida é que, consequentemente, também começou a se perguntar e a se defrontar com o mistério da morte.

    Publicado 05/11

    Foi a partir desta pergunta de São Paulo (cf. I Co 15,55b) que me senti provocado a elaborar algumas linhas a fim de colaborar com uma breve reflexão sobre este momento final da vida (terrena) ao qual todos chegaremos (mais cedo ou mais tarde; de um jeito ou de outro; por bem ou por mal!). Longe de qualquer intenção que não seja a troca de idéias, a partilha do conhecimento e a exposição de uma visão cristã (anglicana) e, muito menos ainda, sem qualquer pretensão em ser o dono da verdade (da qual entendo que todos compartilhamos com distintos pontos de vista), ocupo este espaço virtual como um dos colunistas do pelotas13horas com a finalidade de “justificar” minha presença neste seleto grupo e oferecer uma opinião do ponto de vista religioso-espiritual (como clérigo cristão-anglicano-brasileiro).

    O nascimento da morte

    Desde os tempos dos inícios e, particularmente, desde o momento em que o Ser Humano (homo sapiens) começou a pensar, analisar, ponderar e refletir sobre o mistério da vida é que, consequentemente, também começou a se perguntar e a se defrontar com o mistério da morte. Ou seja, as reflexões sobre a vida e a morte nasceram juntas, isto é, são os dois lados (condicionantes e complementares) da mesma moeda da existência. Para explicar o mistério da existência (tanto da vida quanto da morte) encontramos vários mitos, contos, estórias, parábolas, etc, além de outros tantos meios filosóficos, sociológicos, folclóricos e culturais. Entretanto, e além de tudo, nos deparamos primeira e principalmente com os diversos caminhos religiosos que podem nos ajudar se não a entender pelo menos a enfrentar a (inevitável) morte. Mesmo para os ateus (a-theos = sem deus) as questões da vida e da morte não só dizem respeito como também são pertinentes, profundas, levadas a sério e realísticamente consideradas (sem os inconvenientes pseudo-religiosos ou fanatismos espitirualizantes). 

    Deuses e deusas da morte

    Tânatos

     Na mitologia grega Tânatos (grego θάνατος – latin Thánatos = morte) era a personificação da morte enquanto Hades reinava sobre os mortos no mundo inferior. Assim como Hades para os gregos tem uma versão romana (Plutão), Tânatos também tem a sua: o deus Orco (Orcus em latim) ou ainda o deus Morte (Mors) que era conhecido por ter o coração de ferro e as entranhas de bronze. Tânatos não tinha pai e era filho de Nix (a Noite, filha de Caos); ou, segundo outras versões, era filho de Nix e Érebo (a Noite Eterna do Hades). Era irmão gêmeo de Hipnos (o deus do sono) e era representado por uma nuvem prateada ou um ser de manto e capuz empunhando uma gadanha. Tânatos tem um pequeno papel na mitologia grega porque foi eclipsado por Hades (em grego Άδης; em latin Hádēs) na mitologia grega é o deus que governa o mundo dos mortos (equivalente ao deus romano Plutão que também era um dos seus epítetos gregos). Era filho de Cronos e de Réia, e irmão de Zeus (deus dos deuses) e de Poseidon (deus dos mares). Seu nome era usado para designar tanto o deus quanto o reino que ele governava nos subterrâneos da Terra. Hades desempenha um papel secundário na mitologia grega pelo fato de ser o governante do Mundo dos Mortos e isso faz com que o seu trabalho seja dividido entre outras divindades, tais como Tânatos (deus da morte) ou as Queres (deusas que trazem a morte violenta aos mortais). Alguns relatos mitológicos as trazem como mensageiras de Tânatos, agindo no reino de Hades ao lado das Erínias, entretanto, elas são irmãs de Tânatos mas com finalidades diferentes: Tânatos era o responsável pela morte tranqüila (e, por isso também sua associação à Hipnos); Queres eram as responsáveis por levar os mortos dos campos de batalhas (simbolizavam a morte com destino cruel, violento, fatal e impossível de escapar). 

    Hades

    Hades como senhor implacável e invencível da morte é o deus mais odiado pelos mortais, como registrou Homero (na Ilíada). Platão registra (Crátilo 403a) que o medo de falar ou pronunciar o seu nome fazia com que as pessoas usassem eufemismos. Ele é conhecido por ter raptado a deusa Perséfone (Koré ou Core) filha de Deméter com quem, mesmo tendo sido fiel, nunca teve filhos. Em outros relatos míticos ele também era o guardião dos portais dos infernos e, com sua permissão, na  “noite das almas” ele abria os portões e deixava os mortos irem passear na terra. 

    Hades possuía um companheiro inseparável que era o seu cão Cérbero, cujo aspecto monstruoso e com três cabeças era o responsável por guardar a entrada do reino dos mortos.

    SHEOL – HADES – INFERNO

    Sheol, Xeol ou Seol (do Hebraico שאול  She'ol) pode significar “túmulo, cova ou abismo”. Na Tradição religiosa judáica Sheol é o local de purificação espiritual ou de punição dos mortos, e fica o mais distante possível do céu. De acordo com a maior parte das fontes judaicas, o período da purificação ou de punição é limitado a apenas doze meses, sendo excluídos da punição o dias do shabbat (descanso). Após esse período a alma irá acender ao Olam Habá (o mundo por vir) ou, se for muito má será destruída na Gehinnom (Geena de fogo).

    Na Bíblia Hebraica a palavra sheol aparece mais de 60 vezes sendo mais freqüentemente nos Salmos (9,17; 18,5-7; 86,13; 116,3; 139,8, etc), mas também nos demais livros (Dt 32,22; Jó 7,9; Jn 2,2; Pv 5,5; 9,18; 23,14; 30,16, Os 13,13, etc). A origem do termo é obscura, mas uma teoria apresenta o termo Sheol conectado a ša'al cuja raiz da palavra significa "enterrar" e que, por sua vez, está relacionada ao termo šu'al, isto é, "raposa ou enterrador". Outros estudiosos sugerem que a raiz hebraica para SHE'OL é SHA'AL que significa "perguntar, interrogar, questionar", mas também há aqueles que conectam essa palavra com o tema da “experiência da proximidade da morte“, ou seja, da interrogação dos destinos da alma que está prestes a cruzar o túnel final.

    Os hebreus não tinham idéia de uma alma imortal com uma vida completa além da vida, tampouco criam na ressurreição ou no retorno da morte. Para eles os seres humanos como os animais são feitos do “pó da terra” e na morte eles retornam ao pó (Gn 2,7; 3,19). A palavra hebraica para alma (Nephesh) ou a grega (Psyche), mais adequadamente compreendidas como “criatura vivente” é a mesma para todas as criaturas viventes e não se refere a nada imortal. Todos os mortos descem ao Sheol e lá jazem no sono juntos quer seja bom ou mau, rico ou pobre, escravo ou liberto (Jó 3,11-19). Este lugar é descrito como uma região “escura e profunda" (tal como uma cova) e é comparado "a terra do esquecimento" onde acontece a interrupção da vida (Sl 6,5; 88,3-12). Embora em alguns textos o poder de Yahweh possa alcançar o Sheol (Sl 139,8) a idéia dominante é a de que os mortos são abandonados para sempre. Essa idéia de Sheol é negativa em contraste com o mundo da vida e da luz acima, mas não há noção de julgamento, recompensa e punição. Se se encara situações extremas de sofrimento no mundo dos vivos acima (como aconteceu com Jó) o Sheol pode ser visto como um alívio bem-vindo à dor - basta ler o terceiro capítulo de Jó.

    Por fim, Sheol é um tipo de “nada” ou de uma existência que é praticamente uma inexistência na qual só a sombra (lembrança) do antigo ser sobrevive (Sl 88,10-12). Como o conceito de punição eterna não existe nos sagrados textos hebraicos os mortos (bons e maus) subsistem apenas como sombras impotentes. Quando os escribas judeus helenistas traduziram a Bíblia Hebraica para o grego usaram o termo Hades para traduzir Sheol, trazendo uma associação mitológica completamente nova à idéia de existência póstuma. Na mitologia grega o local denominado Hades (nomeado a partir da deidade sombria que o governava) era originalmente similar ao lugar Sheol hebraico, ou seja, era um submundo escuro no qual todos os mortos, a despeito do mérito individual, eram indiscriminadamente colocados.

    Uma análise imparcial e abrangente de todas as ocorrências da palavra Sheol ou Hades, incluindo o contexto em que surgem, revela que estão sempre associadas com a morte e os mortos, não com a vida e os vivos. Essas palavras, intrinsecamente, não contêm nenhuma idéia ou sugestão de prazer ou de dor. A palavra latina correspondente a Hades é inférnus (por vezes ínferus). Esta palavra quer significar "o que jaz por baixo; a região inferior", e se aplica ao domínio da sepultura (da cova, do túmulo). Ela é uma aproximação dos termos hebraico (Sheol) e grego (Hades), porém, não no significado que a palavra portuguesa inferno veio a ter no imaginário popular (como um lugar de tormento constante e fogo ardente), mas como um lugar figurativo onde repousam os que estão mortos (ou pelo menos não mais nesta vida terrena). Portanto, Sheol, Hades ou Inferno se referem a algo muito mais abrangente do que um túmulo individual ou até mesmo uma grande sepultura coletiva.

    Alguns textos das Sagradas Escrituras judaico-cristãs:

    - Isaías 5,14 diz que o Sheol "escancarou a sua boca além de medida". Embora o Sheol já tenha engolido um incontável número de mortos, parece que anseia por mais, pelo menos enquanto durar a corrupção geral e a desmedida ambição dos poderosos; enquanto a moral se perverte, o direito é falsificado e a injustiça se multiplicar;

    - Provérbios 30,15-16; 27,20 - Ao contrário de qualquer cova ou túmulo, que pode receber apenas um número limitado de mortos, o Sheol não se farta (Quero Mais). Este contexto dá a entender que o Sheol nunca fica cheio ou que não tem limites e, por isso, Sheol ou Hades ou Inferno não é um lugar literal num local específico. Depreende-se que é a sepultura comum ou geral da humanidade, ou seja, um lugar figurativo onde se encontram todos os humanos falecidos;

    - Jó 14,13 apresenta a possibilidade de regressar ao “túmulo” para se esconder da ira de Deus, mas depois quer voltar à vida (pensamento embrionário da ressurreição);

    - Gn 37,35; Sl 55,15 - Demonstra que o Sheol\Hades\Inferno\Túmulo congrega e inclui não só as pessoas que serviram a Deus, mas também aquelas que não O serviram (Cf. At 2,25-32; Ap 20,11-15) e, por isso, haverá "uma ressurreição tanto de justos como de injustos" - At 24,14-16;

    - I Pd 3,18-22 - Depois que Jesus, o Cristo de Deus, “sofreu a morte na carne” Ele desceu ao Sheol para pregar aos espíritos que estavam detidos no cárcere\inferno. Ele foi anunciar o Evangelho também no mundo dos mortos para que, embora estejam condenados em sua humanidade, possam viver conforme a vontade de Deus quanto ao Espírito\Alma (que é imortal). 

    Ensinamentos  doutrinários cristãos

    1 – Segundo Testamento - Ressurreição (em latim resurrectione, em grego anastasis) significa literalmente levantar; erguer. A ressurreição é a doutrina básica para o cristianismo porque o Seu fundador ressuscitou pessoas e Ele mesmo ressuscitou. 

    a) Os Evangelhos: a ressurreição de Jesus é a verdade central da fé Cristã conforme está relatado nos Quatro Evangelhos (Mt 28; Mc 16; Lc 24 e Jo 20). Entre os relatos mais conhecidos está a ressurreição de Lázaro (cf. Jo 11,1-44). Este caso enfatiza o teor sobrenatural da ressurreição, pois, testemunhas oculares e até mesmo opositores de Jesus comprovaram que realmente Lázaro havia falecido e que o seu corpo já havia sido depositado no túmulo e que, quando Jesus foi vê-lo, já estava em adiantado estado de decomposição. Mas há também os relatos da filha de Jairo (Mt 9, 18-26) e do filho da viúva de Naim (Lc 7,11-17).

    No Evangelho de Lucas (20,27-40) se encontra o registro da Palavra de Jesus sobre a questão da vida após a vida, pois, foi a partir da própria incredulidade dos saduceus (ao questionarem Jesus) que Ele pode elucidar (o assunto da ressurreição) e exemplificar (através de uma parábola) que “Deus não é deus de mortos, mas de vivos”, entretanto, são como anjos: nem casam nem se dão em casamento! 

    Torna-se necessário mencionar a parábola do Juízo Final (cf. Mt 25, 31-46) onde Jesus aponta, de maneira simples e clara, quais os critérios que Deus vai utilizar para separar “os bons dos maus” (as ovelhas dos cabritos) e, consequentemente, qual será o destino de cada um. Na verdade, as pessoas serão seus próprios juízes e traçarão seus próprios destinos a partir de suas atitudes (aqui e agora), isto é, elas mesmas escolherão o futuro que deverão ter. Ou seja, cada pessoa escolherá (por sua prática de fé) se “vai receber como herança o Reino de Deus” ou se vai para o “fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos”.     

    Igualmente na Parábola do Rico e Lázaro (Lc 16,19-31) Jesus ensina que o que fazemos aqui e agora é o que nos salvará ou nos condenará na eternidade. Esta estória vai muito além da questão da vida depois da vida. Trata, acima de tudo, da vida terrenal, ou seja, nosso lugar na eternidade dependerá de nossas atitudes hoje. Com este ensinamento Jesus questiona nosso modelo social e propõe imediata transformação das relações humanas. Precisamos sair do esquema perverso do “manda quem pode; ou manda quem tem” (acúmulo de poder e de riquezas), para construirmos uma sociedade (paradisíaca) onde não haja necessitados e a partilha dos bens de todos seja entre todos, ou seja: do muito de todos para que cada um tenha o seu bocado!

    b) As cartas paulinas – O apóstolo das Nações abraça a fé cristã e a espalha pelo mundo. Suas cartas retratam suas viagens missionárias, além de testemunhar o seu grande empenho e enorme zelo pelo anúncio do Evangelho a todos os povos. Entretanto, é na sua primeira carta aos Coríntios (capítulo 15) que encontramos um dos mais profundos e elucidativos textos sobre a vida depois da morte. Paulo escreve: “...e se Cristo não ressuscitou, a nossa pregação é vã e a fé que vocês têm é vazia. E, sendo  assim, nós também somos considerados falsas testemunhas de Deus porque estamos testemunhando contra Deus ao dizermos que Ele ressuscitou Cristo. Pois, se os mortos não ressuscitam, também Cristo não ressuscitou; e, se Cristo não ressuscitou, é vã a fé de vocês e ainda estais em pecado.” (I Co 15,12-17). Ou seja, a nossa ressurreição é certa por causa da ressurreição de Jesus, o Cristo de Deus.
    Os corpos ressuscitados (corpos espirituais) serão diferentes dos corpos que temos agora e serão eternos. São Paulo escreveu: “Eis aqui vos digo um mistério: Nem todos dormiremos, mas todos seremos transformados, num momento, num abrir e fechar de olhos, ao som da última trombeta; porque a trombeta soará, e os mortos serão ressuscitados incorruptíveis, e nós seremos transformados. Porque é necessário que isto que é corruptível se revista da incorruptibilidade e que isto que é mortal se revista da imortalidade” (I Co 15, 51-53).

    Por causa da ressurreição de Cristo nós também podemos fazer novas\renovar\ressuscitar as relações pessoais\familiares\sociais que foram ou estão destruídas e igualmente mortes. Ainda diz São Paulo: “Cristo nos vivificou, estando nós mortos nos nossos delitos e pecados. Mas Deus, sendo rico em misericórdia, pelo Seu muito amor com que nos amou, estando nós ainda mortos em nossos delitos, nos vivificou juntamente com Cristo. Vocês foram salvos pela Graça e, na pessoa de Jesus Cristo, Deus os fez entrar\sentar no céu” (Ef 2, 1-6). 

    2 - O Credo Apostólico – O credo é uma profissão de fé que, nos inícios da Igreja, era proclamada pelo catecúmeno por ocasião do seu Batismo. Neste resumo da Fé Cristã (originário das primeiras comunidades fundadas pelos Apóstolos) afirma-se que Jesus desceu ao Hades; ressuscitou ao terceiro dia! Portanto, para os cristãos\ãs essas duas afirmações são artigos de fé (dogmas).
    Para os anglicanos assim reza o ARTIGO VIII – DOS CREDOS - O Credo Niceno e o que ordinariamente se chama Símbolo dos Apóstolos devem ser inteiramente recebidos e cridos; porque se podem provar com autoridade muito certas da Escritura Sagrada. (Dos 39 Artigos)

    3 - O Catecismo da Igreja Católica Romana nos ensina que: 

    §633 – A Escritura denomina a Morada dos Mortos, para a qual Cristo morto desceu, de os Infernos, o Sheol ou o Hades.  Visto que os que lá se encontram estão privados da visão de Deus. Este é, com efeito, o estado de todos os mortos, maus ou justos, à espera do Redentor que não significa que a sorte deles seja idêntica, como mostra Jesus na parábola do pobre Lázaro recebido no “seio de Abraão”. “São precisamente essas almas santas, que esperavam seu Libertador no seio de Abraão, que Jesus libertou ao descer aos Infernos”. Jesus não desceu aos Infernos para ali libertar os condenados nem para destruir o Inferno da condenação, mas para libertar os justos que o haviam precedido.  
    §634 – “A Boa Nova foi igualmente anunciada aos mortos…” (1Pd 4,6). A descida aos Infernos é o cumprimento, até sua plenitude, do anúncio evangélico da salvação. É a fase última da missão messiânica de Jesus, fase condensada no tempo, mas imensamente vasta em sua significação real de extensão da obra redentora a todos os homens de todos os tempos e de todos os lugares, pois todos os que são salvos se tomaram participantes da Redenção.  
    §635 – Cristo desceu, portanto, no seio da terra, a fim de que “os mortos ouçam a voz do Filho de Deus e os que a ouvirem vivam” (Jo 5,25). Jesus, “o Príncipe da vida”, “destruiu pela morte o dominador da morte, isto é, O Diabo, e libertou os que passaram toda a vida em estado de servidão, pelo temor da morte” (Hb 2,5). A partir de agora, Cristo ressuscitado “detém a chave da morte e do Hades” (Ap 1,18), e “ao nome de Jesus todo joelho se dobra no Céu, na Terra e nos Infernos” (Fl 2,10).

    O Papa Bento XVI ao se referir sobre a descida de Cristo ao mundo dos mortos, escreveu: “Que novidade realmente aconteceu ali através de Cristo ? Sendo a alma do homem por si própria imortal desde a criação, qual foi a novidade que Cristo trouxe ? Sim, a alma é imortal, porque o homem de forma singular está na memória e no amor de Deus, mesmo depois da sua queda. Mas a sua força não basta para elevar-se até Deus. Não temos asas que poderiam nos levar até aquela altura. Porém, nada pode contentar o homem eternamente, se não o estar com Deus. Uma eternidade sem esta união com Deus seria uma condenação. O homem não consegue chegar ao alto, mas deseja-o: “Clamei a vós…” Só o Cristo ressuscitado pode nos elevar até à união com Deus, onde nossas forças não podem chegar. Ele carrega realmente a ovelha perdida sobre os seus ombros e a leva para casa. Vivemos sustentados pelo seu Corpo, e em comunhão com o seu Corpo alcançamos o coração de Deus. E só assim a morte é vencida, somos livres e nossa vida é esperança.”

    4 – Os 39 Artigos de Religião – Em 1563 o Sínodo da Igreja da Inglaterra aprovou os 39 Artigos (na época da Rainha Maria I). Em 1570 o Congresso inglês aprovou os 39 Artigos como “princípios de fé” e todos os ministros ordenados (diáconos, presbíteros e bispos), membros da corte, universitários (professores e alunos) e os funcionários públicos deveriam ratificá-los (esta Lei permaneceu até o início de Séc. XVI). Os 39 Artigos esclareceram a posição doutrinal da Igreja Anglicana diante da Igreja Romana e da Igreja Protestante (Luterana). Contudo, e apesar de serem de grande influência na Comunhão Anglicana, estes artigos não foram “profissões de fé” como o Credo Niceno ou o Credo Apostólico.

    Mesmo com algumas reparações e acrescentados novos entendimentos bíblico-teológicos, os 39 Artigos continuam sendo considerados como referência história e de grande valor espiritual para a Igreja Anglicana e, para corroborar com este texto, mencionamos mais alguns de seus artigos:

    ARTIGO III – DA DESCIDA DE CRISTO AO HADES - Assim como Cristo morreu por nós, e foi sepultado; assim também deve ser crido que desceu ao Hades.

    ARTIGO IV – DA RESSURREIÇÃO DE CRISTO - Cristo verdadeiramente ressurgiu dos mortos e tomou de novo o Seu corpo, com carne, ossos e tudo o mais pertencente à perfeição da natureza humana; com o que subiu ao Céu, e lá está assentado, até que volte a julgar todos os homens, no derradeiro dia.

    Penso que é oportuno demonstrar aqui a diferença (sem qualquer juízo de valor) entre a doutrina Católica Romana e a compreensão da Comunhão Anglicana no que diz respeito ao purgatório, visto que este grupo de Igrejas também foram fortemente influenciadas pela Reforma do séc. XVI (tendo John Wyclif – 1328\1384 – professor, teólogo, tradutor da primeira Bíblia para o inglês como precursor da reforma):  

    ARTIGO XXII– DO PURGATÓRIO - A doutrina romana relativa ao Purgatório, Indulgências, Veneração e Adoração tanto de imagens como de relíquias, e também à invocação dos Santos, é uma coisa fútil e vãmente inventada, que não se funda em testemunho algum da Escritura, mas ao contrário repugna à Palavra de Deus.

    Dia  de  finados

    Sua origem mais provável vem da cultura do povo Celta que habitava o centro da Europa, mas que entre o II e o I milênios aC. (entre 1900 - 600) foram ocupando várias regiões até chegar a ocupar, no século III aC., mais da metade do continente europeu. Os celtas form conhecidos nas regiões que viveram por diferentes nomes: celtíberos na Península Ibérica; gauleses na França; bretões na Grã-Bretanha; gálatas no centro da Turquia, etc, e tinham como característica religiosa o culto à natureza e como compreensão espiritual a reencarnação.

    Diversas fontes sobre o assunto demonstram que o cristianismo se utilizou da data, que já era usada pelos Celtas desde muitos séculos, para também fazer o seu dia de reverências aos mortos. Para os Celtas o dia 31 de outubro marcava o fim de um ciclo natural (de um ano produtivo) e iniciava o período denominado de outono\inverno. Neste tempo a colheita finda e precisa ser estocada (armazenada) para enfrentar os meses frios e escuros, além das nevascas do inverno.

    Ao celebrar o fim de um ano (31 de outubro) e início de outro (1º de novembro), acreditava-se que este dia seria o de maior aproximação entre os que estavam encarnados (os vivos) e os desencarnados (mortos). Além disso, nesta festa (celebrada com muita alegria) cada pessoa devia levar algo como uma vela ou uma luminária (que era feita em gomos de bambu) a fim de iluminar a escuridão dos dias de inverno que estariam por vir. Outros textos falam que as luminárias eram feitas de abóboras esvaziadas e esculpidas com o formato de cabeças para indicar o caminho àqueles que eles acreditavam serem visitados por seus parentes falecidos e receber o perdão daqueles a quem eles haviam feito sofrer. Mas também significava um gesto de sabedoria e um ato de humildade através do qual se pedia perdão aos vivos e se reverenciava os mortos (como prova de vida além da vida). Este ciclo se encerrava em outra data importante, no dia 1º de maio, que no hemisfério norte era o dia do início dos trabalhos para a nova plantação e, assim, iniciava-se um novo ciclo de vida.

    Com a dominação dos “povos celtas” pelo Império Romano (que era rico em armas, bom em estratégias de guerra e havido por conquistar povos) as culturas folclóricas e as tradições religiosas também foram se misturando e, sincreticamente, foram sendo reunidas, misturadas e praticadas no contexto de dominação e exploração por todo o mundo e civilização greco-romana.

    Em 998 o abade de Cluny, Santo Odilon, pedia aos monges que orassem pelos mortos. No século XI os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade cristã a dedicar um dia aos mortos. No século XIII esse dia anual, que até então era comemorado no dia 1 de novembro, passa a ser comemorado em 2 de novembro.

    No México o dia dos mortos é uma celebração de origem indígena (maia) que honra os defuntos no dia 2 de novembro, mas a festa começa no dia 1º de novembro e coincide com as tradições cristãs-católicas do dia dos fiéis defuntos. É uma das festas mexicanas mais animadas porque, segundo crêem os maias, os mortos vêm visitar seus parentes e são recebidos com diversas comidas, bolos, músicas e doces, sendo que os preferidos das crianças são as caveirinhas de açúcar.

    Segundo a Tradição Cristã o Dia de Finados (ou Dia dos Fiéis Defuntos ou Dia dos Mortos) é celebrado no dia 2 de Novembro, logo depois do dia de Todos os Santos.

    Dia de TODOS OS SANTOS

    O Dia de Todos os Santos é uma festa em “honra a todos os santos conhecidos ou desconhecidos”. No fim do segundo século os cristãos começaram a honrar os que haviam sido martirizados por causa da sua fé e, achando que eles já estavam com Cristo no céu, oravam a eles para que intercedessem a seu favor. O primeiro registro no calendário eclesiástico data do século IV e menciona um dia comum para a celebração de Todos os Santos. Isso que aconteceu em Antioquia, no domingo seguinte ao Domingo de Pentecostes, e essa tradição se mantém nas igrejas ortodoxas. No ocidente a comemoração regular começou em 13 de maio de 609 (ou 610) quando o Papa Bonifácio IV (re)dedicou o Panteão — o templo romano em honra a todos os deuses — a Maria e a Todos os Santos Mártires.

    Posteriormente a data foi mudada para novembro quando o Papa Gregório III (731-741) dedicou uma capela em Roma a Todos os Santos e ordenou que eles fossem homenageados em 1° de novembro. Não se sabe ao certo por que ele fez isso, mas pode ter sido porque já se comemorava um feriado parecido, na mesma data, na Inglaterra: o Samhain (era um festival que celebrava a passagem do ano, no calendário agrícola celta, marcando o fim do ano velho e o começo do ano novo).

    No festival de Samhain acreditava-se que as almas dos mortos retornavam as suas casas para visitar os familiares, buscar alimento e se aquecer no fogo da lareira. Esta era uma festa muito popular entre os povos celtas e que foi conhecida no tempo da cristianização da Grã-Bretanha. A Igreja Anglicana tentou desviar o interesse pelos costumes pagãos acrescentando uma comemoração cristã ao calendário na mesma data. É possível que a comemoração britânica medieval do Dia de Todos os Santos tenha sido o ponto de partida para a popularização dessa festividade em toda a Igreja.

    Portanto, a Festa de Todos os Santos não acontece no dia imediatamente anterior ao Dia de Finados, muito ao contrário. Foi uma data escolhida propositalmente com várias finalidades:

    1 – reafirmar a fé na ressurreição (a partir de Jesus Cristo);
    2 – lembrar aos fiéis vivos que os queridos falecidos\as estão junto de Deus (aguardando o juízo final);
    3 – trazer à memória suas boas atitudes e imitá-los\as (como santos\as de Deus);
    4 – não crer nem ter medo das “almas penadas” (vagando pelo mundo), e
    5 – cuidar das sepulturas e cemitérios (como lugares de silêncio e oração).

    Outras peculiaridades da Tradição Anglicana:
    - Adoração aos santos\as: não há veneração ou romaria aos santos\as porque estes\as são todas aquelas pessoas que viveram e morreram (imitando a vida e a morte de Jesus) e que repousam em Deus aguardando a ressurreição final. Canta-se no hino: “Como os santos de Deus qualquer um pode ser, e sempre com Deus viver! (333 do Hinário Episcopal). Somente as comunidades anglo-católicas costumam ter imagens nos templos e algumas usam o Rosário Anglicano para a oração do Terço. Entretanto, há no calendário litúrgico anglicano as datas comemorativas aos Apóstolos, Evangelistas, Mártires, Virgem Maria e datas onomásticas (de pessoas ou eventos cristãos); 
    - Culto em memória: é a celebração que traz e atualiza na memória da família ou da comunidade a lembrança carinhosa daquelas pessoas que já faleceram. O culto não tem nenhuma intenção nem poder de mexer com a situação dos falecidos, a não ser a de recordar suas vidas e imitar-lhes os bons exemplos. O Ofício de Sepultura (LOC pág. 192ss) se caracteriza como uma celebração pascal, ou seja, todo o seu significado se concentra na Ressurreição de Jesus que passa pela morte para a verdadeira vida;
    - Limbo: do latim limbus (margem, franja) seria um local que fica fora do céu e para onde vão os mortos inocentes, os justos e as crianças sem pecado, porém, separados de Deus por causa da condenação do pecado original. Em 2007 a Comissão Teológica Internacional (da ICAR) emitiu um documento afirmando que o limbo não passaria de uma hipótese e que nunca foi dogma. O papa Bento XVI confirmou o documento e assegurou que as almas que não tiverem cometido pecados graves vão para o céu, mesmo que não tenham sido batizadas. Tal qual a Igreja Anglicana as Igrejas Ortodoxas e as Protestantes nunca aceitaram esta hipótese por não ter base bíblica.

    Ó morte, onde está o teu aguilhão?
    Na compreensão teológica Cristã, a não ser DEUS, tudo tem começo, meio e fim. Logo, a vida também tem, afinal ela é Dom de Deus. Enquanto estamos neste mundo somos como que MORDOMOS da vida, conforme Paulo escreveu aos romanos: “Nenhum de nós tem vida em si mesmo, e ninguém será seu próprio Senhor quando morrer. Se temos vida é porque estamos vivos no Senhor; se morremos, morremos no Senhor. Portanto, quer vivamos quer morramos pertencemos ao Senhor!”. (Rm 14,7-8)

    Finalizo este texto com outra citação do próprio apostolo São Paulo na sua carta aos Coríntios 15,54: “Portanto, quando este corpo corruptível for revestido de incorruptibilidade, e este ser mortal for revestido de imortalidade, então se cumprirá a Palavra da Escritura:
    a morte foi engolida pela vitória!”

    Rev. Ramacés Hartwig, ost
    Clérigo Anglicano
    Colônia Santa Helena – Pelotas (RS)
    Festa de Todos os Santos\2012

     

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    Fonte: Ramacés Hartwig

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