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Clayton Rocha - Trajetória

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    Nobre Jornalista

    José Gomes Neto e o Jornalista Flávio Tavares trocaram correspondência.

    Publicado 01/03

    Sempre fico pensando se tenho o direito de escrever-te para, de alguma forma, manifestar meu pensamento. Mas não devo ser o único, pois, como tu(resolvi tutear para não trair nosso jeito de falar, aqui no Rio Grande) tens uma atividade pública, certamente passas por isso muito seguido.

    A Zero Hora de 28/01 publica um capítulo do teu último livro – 1961 – O Golpe Derrotado.

    Para mim, pelo menos naquela época(no regresso dele, do exílio, eu abrandei essa impressão), o Brizola era “radical, infantil e aventureiro”, como tu sugeres que alguns o classificavam. Acho que ele tinha um viés ditatorial e que, por sentir-se fraco, ou sem o necessário apoio, envolvia o Jango.

    Deves lembrar que em mais de uma vez ele discursou pregando, abertamente, o fechamento do Congresso. Não sei para que lado ele iria se obtivesse vitória em seu intento. Mas uma cousa é certa: fosse para aonde fosse, seria sem o Jango. Até imagino que ele, vitorioso, teria o mesmo destino do Fidel, que, a meu ver, foi para aonde foi por inabilidade norte-americana. Mas, o que eu quero mesmo é contestar o título do teu livro.

    O golpe não foi derrotado, apenas adiado. Já te disse que chamo de contra-revolução o movimento de 64, mas aqui, para não ficar confuso, admito chamar golpe. Quando em 61, o Brizola, inegavelmente, com coragem e audácia, predicados que nunca lhe tirei, comandou a Legalidade, seu objetivo não foi alcançado. Houve, isso também é fácil de identificar, um comportamento, por parte dos militares, cautelar.

    Eles obtiveram mais com a instauração do parlamentarismo do que o Brizola com a Legalidade, para mim, um movimento muito barulhento e bastante expressivo e revelador de uma posição determinada claríssima, a do seu chefe. Vitorioso teria sido se ele tivesse se constituído na semente do resultado que o Brizola almejava.

    Ao contrário, o aparente recuo dos militares é que acabou por constituir-se na semente do que eles queriam. Mas, eu já te disse na primeira vez que tomei a liberdade de dirigir-me a ti: minha contra-revolução, movimento, em face das circunstâncias, legítimo, durou enquanto durou o mandato de Castelo. Daí em diante nasceu a ditadura, com a qual eu nunca concordei, embora ela fosse mais branda do que a do Getúlio. Nunca lutei contra ela porque esse não é meu feitio e eu entendia que não adiantava dar soco e ponta de faca.

    Bem, o capítulo que li do teu livro, trouxe-me uma informação que me deixou perplexo. Refiro-me à pressão que levou Brizola a tomar a medida audaciosa que tomou: a desapropriação da filial da Bond and Share. Não me recordava dos detalhes ou não os conhecia, mas vejo, hoje, como ele agiu com correção. Como ele foi, na verdade, um legítimo defensor dos interesses do povo.

    A única cousa que me faria divergir é que o comando da empresa ficasse com o governo. Se ele tivesse, então, já que era um político lúcido e criativo, inventado a privatização e chamado empresas nacionais, até mesmo com subvenção governamental, para assumir o que fora desapropriado, teria sido presidente da república.

    Mas, apesar de não concordar com o título do livro, pretendo lê-lo.

    Saudações cordiais e mil desculpas se o importuno.

    José R. Gomes Neto

    P.S. – Hoje sempre é bom esclarecer. Os defeitos que eu atribuía ao Brizola era meramente ideológicos e também não via nele muita sinceridade. Jamais o acusei de desonesto, aliás, nem ao Jango.

     

    Resposta de Flávio Tavares

     

    Caro amigo Dr José R Gomes Neto

    Muito obrigado pelo tuteio. É a melhor prova de proximidade, daquela proximidade ética que leva à amizade, mesmo que não nos conheçamos pessoalmente. Obrigado MESMO, também pelas palavras que me escreveste e, mais do que tudo, pela forma com que as escreveste.
     
    Quando leres (ou...se leres) o meu novo livro, verás que, ao final, chego à conclusão que o golpe foi apenas adiado. Mas o que escrevi agora busca resgatar minhas memórias pessoais em torno de agosto-setemebro de 1961, 50 anos atrás. Só isto, sem projetar nada para o futuro.
     
    O livro não vai além de setembro de 1961, mas ali,nesse espaço (como verás pelo seu final) já está tudo delineado.
     
    Concordo contigo quanto ao governo Castello Branco. Hoje, até explico a honestidade pessoal dos que deram o golpe de 1964, por motivos ideológicos, em plena Guerra Fria. Mas e a ditadura que se seguiu?
     
    Tenho um amigo, de 93 anos de idade, participante direto do golpe de 1964, o almirante Júlio de Sá Bierrenbach, (que tomou o porto de Santos sem um tiro) que confiava nos "ideais do movimento revolucionário", mas que sempre costuma repetir: "Tudo terminou quando prorrogaram o mandato do Castello Branco...".  Daí em diante, diz ele, surgiu "um governo forte" e, em seguida, a tortura tornou-se a marca da ditadura.
     
    Fico na citação do almirante Bierrenbach que me parece ter mais peso, pois foi, inclusive, presidente do Superior Tribunal Militar nos governos Geisel e Figueiredo e, do seu posto, muito contribuíu para a abertura e a redemocartização.
     
    Coincido com muitas das obervações que me fazes, divirjo de muitas outras e nisto está -precisamente- a riqueza do diálogo da amizade. A divergência é o que mais peso tem e teve na cultura, ao longo dos séculos. O debate é algo socrático, é uma dávida socrática.
     
    Lanço o novo livro em Porto Alegre a 7 de março e, mais tarde, penso numa sessão e autógrafos em Pelotas, cidade que não visito há mais de três décadas. O que achas?
     
    Espero que continuemos em contacto.
     
    Com um abraço,
     
    Flávio Tavares

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    Fonte: José Gomes Neto

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    Comentários (1)

    feito em 02/03/2012 00:35:17

    Altíssimo nível e muita sinceridade nas duas cartas trocadas. Nada melhor do que o texto, que fica registrado, para recuperar episódios marcantes, aproximar pessoas, mostrar a divergência, sempre rica e necessária. Aproveito o momento, estimado José; prezado e admirável Flávio Tavares, para deixar aqui registrado um convite do Ciclo Permanente de Palestras da Universidade Federal de Pelotas, da Comissão UFPEL 200 anos de Pelotas, e da Faculdade de Direito de Pelotas, no ano de seu Centenário, ( é, hoje, o 1º curso do RS e o 6º do Brasil, de acordo com o Exame da OAB): O Auditório professor Bruno de Mendonça Lima aguarda o jornalista Flávio Tavares, em data de sua livre escolha, para registrarmos, com grandeza, as festividades acima referidas. E nos colocamos ao seu dispor para duas tarefas: organizar e conclamar a comunidade universitária para a sua palestra; e estruturar a sessão de lançamento de sua obra. Forte abraço do jornalista Clayton Rocha.

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