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    Gabriel García Márquez e minha vida

    García Márquez, objeto dessas minhas observações, foi o mágico, o grande usuário das palavras organizadas, o adjetivador raro, o condensador do poema proseado e da prosa ‘poetizada’.

    Publicado 20/04

    Para Márcia De Lima Canez, Daniele Formozo, Lara Fernanda Sampaio Sardi, Ricardo Petrucci Souto, Alvaro Barcellos, Fernando Amaro Da Silveira Grassi, Verinha Garcia, Renato Amaro Da Silveira Grassi, Eduardo Lôbo Costa, Clayton Rocha, Andréa Schönhofen, Manoel Magalhães, Maribel Felippe, Luiz Carlos Vaz e Nauro Júnior (e outros tantos que talvez possa ter esquecido, ou sequer soube, do gosto pela literatura de García Márquez).

    Li García Márquez com quatorze anos, lembro bem. Em minha pequena cidade, Bagé, há quase quarenta anos, as letras boas tinham circulação restrita e leitores loucos. Aqui e acolá se falava dos clássicos, mas sempre com uma espécie de reverência temerosa, o que acabava por reduzir o tamanho moral do observador, quase como se não fosse um cidadão à altura de suas análises pretensiosas, e normalmente se dava uma maior altitude, numa humanidade vertical, ao autor do que à obra. Sobre homens extraordinários, ou lá tornados inigualáveis, fazia-se o derramamento abusivo da iconofilia. Amava-se ‘em efígie’, da mesma forma que a Inquisição queimara, nos assim chamados ‘autos em efígie’, os hereges ausentes. Amor intenso, ódio imenso: assim vivem os boateiros cultores da fama dos grandes nomes, cantarolando na superfície suas crendices e palavras fáceis, gestando cânones e derrubando valores, para no final pouco ou nada acabar-se realmente sabendo das obras, dos legados, das heranças e dos frutos do engenho de alguém. Os heróis e os celerados das pequenas cidades ganham famas não condizentes, mas nada disso acaba importando diante da imaginação que dali se desata como um entorpecimento indolente ou uma música sedutora que passamos a entoar distraidamente. Fala-se por falar sobre algo ou alguém, e dizem-se coisas muito indevidas dentro dessa pequenez humana que é o próprio universo nosso, e talvez seja tudo o que temos. Mas nas cidadezinhas como a minha, um pequeno vapor desprendido de uma garganta sem pudor pode anestesiar a todos com seu veneno sem antídoto, ou um pequeno elogio pode agigantar-se de tal maneira que toda gota vira mar. Para o bem e para o mal, e nem o Bem ou o Mal são entendidos com alguma fixidez conceitual ou alguma ilustração de raciocínio, ou ainda com a força de um entendimento discursivo.

    Pois na doce Bagé da minha memória tudo era assim àquele tempo, e talvez hoje nada tenha mudado muito, mesmo que a globalização nos americanize, que o neoliberalismo torne o mundo inteiro um Pampa ou que nos evanesça a identidade do pago bruto da Campanha; mas não sei, isso não posso afirmar, muitos amigos de lá se foram, meus parentes não mais existem e eu próprio exilei-me em Pelotas para sempre.

    Por essas razões, quando me chegou às mãos o “Cem Anos de Solidão” não o entendi bem. Sabia que ali vinha o rótulo de um autor fabuloso, mas que ninguém sabia bem por quê. Um pouco em razão de minha idade e do meu universo, um pouco pela narrativa de García Márquez e um pouco ainda porque a recomendação de leitura havia sido de meu pai (que lera, de fato, o livro), eu fiquei um tanto atônito e com alguma responsabilidade. Sabia que precisava compreender o livro, meu pai esperava isso de mim, queria ver-me crescer por dentro. E aquele mundo, que depois se sedimentou melhor com o nome de “realismo fantástico”, entrou homeopaticamente em mim, página por página, com suas alegorias hiperbólicas, com suas metáforas incríveis e com a força gigantesca de suas ideias e de suas imagens. E então, por algum tempo em minha cabeça adolescente, minha Bagé tornou-se minha Macondo. Depois ainda – e sempre – com o enlevo próprio do gênero literário sem limites, vieram-me outros livros seus, até o que considerei o melhor de todos, “ O Amor nos Tempos do Cólera”, que mesmo não sendo o mais emblemático para a consideração dos críticos literários ao redor do planeta, todos debruçados naquela novidade estilística, foi o que me ensinou definitivamente a amar e a buscar o amor com todas as forças do coração, ainda que sem nada ter às mãos senão a esperança remota da conquista de uma mulher por um homem ou de um homem por uma mulher, ou as duas coisas juntas. Mas esse livro já li adulto, após tornar-me professor de filosofia jurídica.

    Quando li García Márquez naquela minha meninice tinha eu também já sido contaminado pelos encantos literários de Camus, com “A Queda”, e Hemingway, com “O Velho e o Mar”. Tomara-me de prazeres com os russos também, pois cedo meu pai levou-me a Dostoievski, Tchékov e Gorki. Um pouco depois, perto dos dezoito e já vivendo meu degredo pelotense desde 1979, vieram outros russos, e foi a vez então de Tolstói e Gógol. Em seguida, o livro definitivo da minha vida, o “Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha”, a melhor obra de ficção que consigo imaginar, em especial se levar em conta a época em que foi escrita (nos albores do século XVII). Esta obra é, para mim, inigualável, e a reputo acima de todas, mesmo que a relativização da boa literatura seja um imperativo dela mesma, pois ao final restringe-se a apreços significativamente individuais. E então chegaram-me, pouco a pouco, durante meu tempo de estudante da Faculdade de Direito da Universidade de Pelotas (1979 a 1983), outros autores. Os franceses, em especial Proust (recordo de muitas noites adormecer com um dos volumes de “Em Busca do Tempo Perdido” caindo-me sobre a face), Victor Hugo, Baudelaire, André Gide, Jean Genet e Sartre (que conheci ainda em Bagé como um filósofo, com o opúsculo “O Existencialismo é um Humanismo”); alguns ingleses, em especial Charles Dickens e Oscar Wilde; outros, americanos, como William Faulkner, Tennessee Williams e Walt Witmann (sem falar no velho Hemingway, que havia, como disse, lido antes). Depois vieram os brasileiros, cuja leitura agora realizada não foi a mesma que havia feito aos tempos do ginásio, com as fichas de leitura organizadas de forma a relatar o que havíamos compreendido. Aí apareceram Machado de Assis, Lima Barreto, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Euclides da Cunha, Jorge Amado, Rubem Braga e Raduan Nassar (Machado de Assis e Guimarães Rosa bastaram por todos). Não reli, propositadamente, nada de José de Alencar, e mantenho meu desejo intocado até hoje desde que fechei para sempre as cansativas páginas de “Ubirajara” lá pelos doze, treze anos, num desses trabalhos de colégio. Assim, ao final do meu curso superior já havia lido os grandes clássicos da literatura mundial e formado alguma convicções sobre eles. Mas, bem mais do que isso, eu havia em grande parte sido formado por eles, o que denota o imensurável valor da literatura para o espírito humano. Tornei-me depois um profissional da filosofia, a qual leciono há quase trinta anos, mas foi a literatura que me largou na vida e me permitiu opções mais claramente emocionais. Nem só a prosa, mas também o poema, e recordo dos épicos “Os Lusíadas”, “Vozes da África” e “A Divina Comédia” e os efeitos que me provocaram, e provocam, até hoje. Não relerei “A Divina Comédia”, acho, quero ficar com o que ela me foi num tempo atrás, que – esse, sim – não consigo precisar bem quando foi, mas penso que ao redor dos meus vinte e cinco, vinte e seis anos, afora as edições de bolso reduzidas que haviam da Ediouro, e das quais uma, obtida por meu pai, foi parar em minhas mãos em tempos onde tal poema não foi servível ainda, e tive de abandoná-lo por entendê-lo longo e difícil. Depois, ah, depois, ele voltou com uma força insuperável aos meus olhos, e isso foi nessa época em que imagino tê-lo lido.

    Depois desses, vários anos após, Saramago e quase todos os seus, e a impressão de que não havia mais nenhuma literatura possível, nada para ler que pudesse me emocionar tanto quanto esses livros me haviam comovido, o que acabou não se mostrando verdadeiro. Hoje, por exemplo, sou um grande admirador de Bukowski e Michel Houellebecq. Desde que os conheci (o primeiro tardiamente, aliás), trouxeram-me novos feitiços e uma impressão de que é possível escrever com a aridez distante de Camus e com a sua força danada.

    Mas García Márquez, objeto dessas minhas observações, foi o mágico, o grande usuário das palavras organizadas, o adjetivador raro, o condensador do poema proseado e da prosa ‘poetizada’. Foi o que me disse que a literatura poderia ser o que eu quisesse, desde que fossem contadas boas histórias, e que, portanto, eu poderia aceitar quaisquer histórias, desde que bem dirigidas e ainda que delirantes, que isso seria, sim, literatura, e talvez das boas; quiçá das grandes, talvez até obras-primas.

    Foi ele que me trouxe sensações únicas a partir da palavra escrita, das ideias que me fez ter, do mundo que me fez imaginar. Tornou-se um desses autores que parecem tornar os outros menores, amadores, beletristas vazios, frágeis, quase cômicos, pretensiosos, impostores. E não quis isso, certamente; tudo veio de sua luz cegante, de seu gênio, de sua condição de escritor monumental e absolutamente isolado em uma ilha estilística. Suas borboletas amarelas, suas travessias por montes insuperáveis, suas viagens sem fim, seus perfumes impossíveis, seu sangue que corria levantando presságios e anunciando acontecimentos imprevistos, seus personagens de nomes fortíssimos e em si já significativos, seu Caribe abafado e sua gente acalorada; enfim, toda a sorte de termos, locuções, frases e parágrafos que fizeram os livros de Gabriel García Márquez impactarem poderosamente minha geração, me fazem, agora, após a morte de um Gabo velhinho, apenas pousar os olhos no nada e entender que mesmo ele, o próprio nada, foi em verdade um ótimo objeto de descrição e inventividade para seu inesgotável engenho.

    Ele se foi anteontem, mas não empobreceu o mundo das letras com sua partida; ao contrário, deixou-o mais rico porque para ele contribuiu como poucos. Aqueles que o leram, ele não deixou, mas levou-os consigo, porque o contato com sua obra não autoriza separações por uma causa elementar como a morte.
    Algum arco-íris de açúcar, um homem mais velho do que todos os homens de Cartagena de Las Índias, uma Aracataca sobre as nuvens devem tê-lo encontrado, e ele talvez tenha fincado uma bandeira fundadora anunciando que estes lugares agora se chamariam Macondo. Se não foi nada disso possível, ele de alguma forma nos convencerá de que poderia ter sido, e o fará através de um sinal no céu que só nós, seus admiradores, entenderemos...
    Quem sabe não foi a Lua Vermelha?

    Deixo aqui um poema musicado de meus irmãos, que tem a excelência de algo que se possa dirigir a um autor da estatura de García Márquez e a vontade poética de dois excepcionais seres humanos.

    MACONDO
    para García Márquez
    nas noites em que estou triste
    eu fujo sumo me escondo
    entre as artérias e veias
    da aldeia de Macondo.
    rodeada de borboletas
    passa Remédios - a bela -
    antes não tinha polícia
    ou fome ou febre amarela.
    entre bêbados e santos
    magos loucos lua cheia
    brotam amantes das peças
    das águas puras da aldeia.
    e sorvo o soro dos magos
    nessa saga colombiana:
    cem anos de solidão
    de uma pátria americana.
    então vislumbro ciganas
    Erêndira e sua avó
    cruzando caminhos tortos
    e estradas de barro e pó.
    passa arqueada pelo tempo
    a família Buendía
    deixando escorrer dos templos
    paz formigas poesia.

    (Alvaro Barcellos - letra
    Ricardo Petrucci - música)

    Leia mais sobre: Artigos, Pedro Moacyr Perez da Silveira

    Fonte: Pedro Moacyr Pérez da Silveira

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    Comentários (1)

    feito em 21/04/2014 21:47:40

    Belo relato sobre GGM e a literatura, Pedro.
    Vaz

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