Fato: O anúncio da Presidente Dilma Rousseff da liberação de R$ 1 bilhão para a duplicação da BR-116.
Mancada: A lavagem de roupa suja do PP de Pelotas no Facebook.
Neiff Satte Alam
José Gomes Neto
Antonio Ernani Pinto
Sérgio Ferreira
José Luis Marasco
Clayton Rocha
Luiz Antônio Caminha
Luiz Carlos Vaz
Francisco Guedes
Ramacés Hartwig
Carlos Vignolo
Pedro Luis Marasco
A contratação de Fabiano Eller pelo Grêmio Esportivo Brasil.
A reprovação de 91% dos inscritos em um concurso do Estado do RS para professor.
Publicado 21/01
A televisão chegou a Bagé por esforço pessoal do Sr.Aracely dos Santos Menezes, proprietário da loja Casa Eletromáquinas. Em uma parceria com o fabricante dos televisores Empire ele instalou em nossa cidade um pequeno retransmissor que “baldeava” - via Pinheiro Machado - o sinal de Pelotas que, por sua vez, o recebia por Camaquã da TV Gaúcha Canal 12, de Porto Alegre. Ufa, que viagem! Mas era só o tempo “se armar” e lá se iam os capítulos dos Irmãos Coragem, os episódios de O Fugitivo e as lutas do Ringuedoze Liquigás. Bah, que luta! Mas, mesmo assim, vimos em 1969 o homem chegar à Lua (minha avó morreu dizendo que eles nem saíram daqui...), a Copa de 70 no México, os festivais da MPB da Record, e pudemos cantar, junto com Malcon Roberts, no Festival Internacional da Canção, da recém criada TV Globo, o Love is all... Tudo “ao vivo” e... em preto e branco, com um magnífico “chuvisco” na imagem e um som acompanhado de chiado terrível. Mas era a televisão que chegava ao Pampa para ficar. As conversas durante o recreio do Colégio Estadual de Bagé já não seriam mais somente sobre futebol, namoro e cinema. A televisão já era também assunto obrigatório e dava status. Foi nessa época que tivemos a transmissão da Luta do Século.
Cassius Clay versus Joe Frazier. A luta entre dois boxeadores que nunca haviam perdido uma luta. Valia pela Associação Mundial de Boxe e pelo Conselho Mundial de Boxe. Era a unificação dos títulos. Em 1971, o inverno resolveu começar naquela noite de 8 de Março e já queria nos nocautear no primeiro round. Para não beijar a lona nos enrolávamos num xergão de ovelha e a mãe nos servia uma sopa bem quente. O sinal da TV andava muito bom pois haviam criado uma espécie de associação, onde os proprietários de aparelhos receptores de tevê contribuíam voluntariamente com uma pequena quantia mensal, através de um carnê, para garantir a manutenção do retransmissor e pagar uma changa para um zelador que passou a morar num puxadinho, lá no alto do Cerro de Bagé, para ficar bombiando a coisa toda. Ele era encarregado de ligar e desligar os equipamentos de retransmissão na pequena casinha junto à antena. Era uma tarefa simples: um clic de tarde e um clac de noite, e o zelador, um típico peão de estância, já afastado das lidas do campo pela avançada idade, já podia voltar para o seu mate e continuar ouvindo, no seu velho rádio, seus programas de tango na Radio Carve de Montevidéu ou em alguma outra emissora castelhana qualquer. Ele colocava a tevê no ar, mas nunca havia chegado perto de uma. Talvez nem soubesse direito a natureza do seu trabalho. Era só chegar perto da caixinha preta, colocar o dedão em uma minúscula “palanquinha”, fazer um clic de tarde, um clac de noite e estamos conversados! Nada mais de domar potro xucro, castrar porco, correr eguada. Era só um clic de tarde e um clac de noite. Uma barbada, e nem dava choque.
Blééém! O gongo deu início ao primeiro round da Luta do Século. Cassius Clay, de quem haviam retirado as medalhas olímpicas e seus títulos do Boxe por não querer lutar no Viet-Nan, e que, por esse motivo, também havia sido preso, agora estava lá no ringue para lutar. Para reconquistar suas vitórias cassadas. Para ser aclamado novamente Campeão. Mas ele lutava também pelos direitos civis, não queria mais que os negros tivessem que sentar nos bancos traseiros dos ônibus, queria ver os jovens negros poderem cursar as mesmas universidades dos brancos e poderem entrar nos lugares onde só os brancos entravam. Eles, os negros americanos, só podiam entrar, junto com os brancos, para o exército. Eles podiam viajar ao lado dos brancos, mas somente nos aviões bombardeiros B-52, para morrer, junto com os brancos, no Viet-Nan. Isso, Cassius Clay não desejava mais. Ele desejavaa paz. Ele foi o primeiro esportista a aliar o marketing com a política e dizia coisas como: "Nenhum vietcongue me chamou de crioulo, porque eu lutaria contra eles?".
Na prisão Cassius Clay converteu-se ao islamismo, por isso quem estava no ringue e agora olhava, com olhos de tigre, para Joe Frazier, não era mais Cassius Clay, era Mohammad Ali-Haj. Era a Luta do Século que começava. E eles estavam ali, frente a frente, e na frente dos meus olhos, na imagem em preto e branco do televisor, com direito a chuvisco, chiado e tudo mais.
Blém, blém, blém... o gongo batia várias vezes para avisar aos lutadores que o primeiro round havia terminado. O árbitro da luta tinha dificuldades em separá-los.
Blééém... mais um round. Muhammad Ali-Haj ainda não acertou nenhum direto em Frazier e o frio antecipado do inverno já estava nos deixando grogs...
Blém, blém, blém...novamente o gongo sinaliza – veementemente - para os lutadores, agora já o final do 14º round. Vamos para o último. Para o 15º round da Luta do Século! Tem que ser agora, Frazier não pode derrubar um homem da estatura de Cassius Marcellus Clay Jr., ou chame-se ele como quer que se chame agora. Chegou a vez do direto de esquerda, ou de direita, não importa, é preciso que Joseph William Frazier se estatele no chão, que suas gotas de suor e de sangue respinguem até as primeiras filas de cadeiras, que respinguem na nossa cara, além do tubo de imagens da nossa Empire 20 polegadas comprada em 24 vezes na loja do seu Aracely....
Eu, agora, já não estou mais enrolado no xergão de ovelha, já pulo trocando os pés, como Ali, como Haj, como Mahamed, como meu ídolo Cassius Clay, como a cara que vai derrubar Joe Frazier, pois vai soar o gongo para o 15º round, do último round da Luta do Século.
Blé....
shshshshshshshshshshshshshhshshshshshshshshshshshshshshsh
foi-se a imagem, foi-se o som e foi-se o 15º - e último - round da Luta do Século.
O velho peão de estância, que agora zelava pelo nosso retransmissor, olhara o relógio. Era meia-noite em ponto! Então ele fez... o clac! Ele fez o clac e foi para a cama dormir o sono dos justos, e foi sonhar com o tempo em que domava potros xucros, castrava porcos e corria eguada...
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Lembro que meu pai, no outro dia pela manhã ao saber do fato, rasgou o carnê da associação e bradou em alto e bom som:
“Não pago mais essa merda!”
Leia mais sobre: Artigos, Luiz Carlos Vaz
Fonte: Luiz Carlos Vaz, do Blog velhaguardacarloskluwe.blogspot.com
E esse comercial, caro comentarista, era exibido às dez horas da noite...ora das crianças irem para acama.
Que maravilha Vaz.Muito bom!Ví só um pedaço dessa luta,numa TV Philips que ficava na sala,que era o lugar de televisão.Eu também não perdia o Ringue 12 Marinha Magazine ,mas havia um protocolo não escrito que eu respeitava :bastava a tocar a música "já é hora de dormir,não espere mamãe mandar..."e lá ia eu para a cama,muitas vezes com raiva daquele bonequinho metido que apagava a vela na propaganda dos cobertores Parayba.Rumo ao "alegre despertar",é claro!
Obrigado Marasco. Confesso que até eu gostei. A narrativa foi baseada totalmente na verdade, tendo apenas um toque ficcional que não inclui, claro, a frase do meu pai e a ação do "peão", coisas que realmente aconteceram.
Este site está prá lá de Bagdá... até mesmo prá lá de Bagé.
Belo texto!
J.L.Marasco