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Clayton Rocha - Trajetória

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    5 anos sem Mozart Victor Russomano

    Cinco anos de saudades. Às vezes, em momentos de descuido, ainda espero, assim, sem refletir, que o telefone que toca seja ele, chamando de Pelotas, o que fazia duas, três vezes ao dia, nas suas últimas décadas de vida

    Publicado 19/10

    Escrevi originalmente este texto com algumas impressões e lembranças pessoais que guardo de meu pai, Mozart Victor Russomano, cujo falecimento completa hoje cinco anos, exatamente às 17 horas e trinta e cinco minutos, a pedido do Diário Popular de Pelotas há poucos dias.

    Reescrevo-o, hoje, dia 17 de outubro de 2015, para o site do programa 13 Horas do amigo – de meu pai e meu – Comendador da ACEG, Clayton Rocha. De novo e de público, parabéns, Clayton, em meu nome e, com certeza, em nome do meu pai! Ele vibraria com esta sua nova conquista.

    Muito se sabe sobre Mozart Victor Russomano.

    Sua trajetória foi brilhante e orgulha Pelotas, o Rio Grande do Sul e o Brasil, com justiça – e escolho esta palavra de propósito – mas creio ainda existirem aspectos dela que, talvez, não sejam tão conhecidos de todos.

    Por exemplo?

    Mozart Victor Russomano não teve sempre este nome: nasceu como Mozart Russomanno – embora, pelo Álbum do Bebê, vê-se que sua mãe, Dona Elda Costa Russomanno, tivesse escolhido o de Mozart Costa Russomanno.

    O menino veio ao mundo no dia 5 de julho de 1922, exatamente ao meio-dia, na casa de seus pais, na rua Dr. Cassiano, 152, em Pelotas, com impressionantes 5 quilos!

    E, na certidão manuscrita do Registro Civil, a primeira curiosidade sobre o seu nome: Mozart aparece escrito erradamente, com “s”, em vez de “z” ...
    A primeira alteração do nome Mozart Russomanno, porém, foi feita quando o seu pai, Dr. Victor Russomanno, médico obstetra pelotense, depois bacharel em Direito, Deputado Estadual e Federal, além de Constituinte em 1934, e seu único tio paterno, também pelotense, Dr. Vicente Russomanno, advogado conhecidíssimo na cidade, tiraram o segundo “n” do sobrenome na reforma ortográfica da década de 30, quando caíram grafias como o “ph” de “pharmacia” e as letras não pronunciadas, como o primeiro “h” de “orthographia”. Assim, os “Russomanno” de Pelotas viraram “Russomano” simplesmente. Daí, a diferença de grafia do nosso Russomano com a do primo Celso Russomanno, que escreve o sobrenome “à moda antiga”.

    A segunda (grande) alteração do nome de Mozart Russomano iria se dar ainda na década de 30, quando ele, já adolescente, tornou-se Mozart “Victor” Russomano, em homenagem ao pai, falecido então, repentinamente, no dia 20 de setembro de 1937, quando discursava em Caxias do Sul, na campanha eleitoral para a Presidência da República de Armando Sales de Oliveira, cuja eleição estava marcada para janeiro de 1938.

    Victor Russomano foi um pelotense admirável e tão à frente de seu tempo, que teve de publicar em Lisboa, Portugal, um de seus livros, escrito em 1914, pelas ideias revolucionárias, ali expostas, para o Brasil da época. A obra chamava-se “A Escravidão Social da Mulher” e, nela, o (muito) moço Victor defendia publicamente o sufrágio universal e o “voto secreto extensivo aos homens e mulheres maiores de 21 anos”.

    Ele foi o modelo de Mozart Victor Russomano. Para lembrar um, é preciso lembrar o outro.

    Quando o seu pai faleceu, Mozart Victor tinha apenas 15 anos, completados menos de três meses antes. A família estava em Pelotas, escutando o discurso pelo rádio ... Foi assim que souberam do ocorrido. E foi assim que o menino Mozart virou o homem Mozart Victor no ato.
    Estou certa de que meu pai nunca se recuperou desse golpe.

    Falava de seu pai com reverência. Até morrer, ao escrever sobre ele, usava sempre a palavra “Pai” com P maiúsculo. Mozart Victor Russomano, mais lembrado, já que viveu entre nós mais recentemente, também foi um homem ímpar.E que esteve à altura do pai.

    Talvez este tivesse sido o elogio que ele mais teria gostado de ouvir em vida. Nada mais verdadeiro, se bem que, talvez, menos sabido. Um dos muitos méritos conhecidos de Mozart Victor Russomano foi o de ter colocado o Brasil no mapa internacional da sua área de atuação.

    Um dos menos conhecidos é que ele era compassivo, sobretudo com as aflições advindas de necessidades econômicas e materiais de outros. Pouquíssimos, além dos diretamente beneficiados por ele, devem saber disto, mas Mozart Victor Russomano, que era quase incapaz de pedir qualquer favor para si mesmo, pedia-os desabusadamente para os outros, sem jamais pretender qualquer retribuição dos favorecidos, mas sentindo-se eternamente devedor de quem o atendia. Quantas pessoas tiveram seu sustento, sua dignidade, suas vidas, mais leves, mais fáceis, graças a ele? Impossível dizer. Foram muitos e muitos e, sobre este assunto, ele calava sempre. Sei o que sei por trechos de conversas que escutei en passant, por entrelinhas de suas Crônicas, por relatos de terceiros. Mas não há qualquer dúvida quanto a ele ter ajudado a tantos quantos pôde e achou merecedores, e que se entristeceu profundamente, mais até, culpou-se, pelos que infelizmente não conseguiu ajudar.

    Foi um verdadeiro privilégio ter sido filha não só de Mozart Victor Russomano, como de Gilda Maciel Corrêa Meyer Russomano, e não apenas pela convivência cotidiana com autoridades reconhecidas mundialmente, como também, se não, sobretudo, pelo exemplo de ambos de probidade, retidão e seriedade.
    Gilda foi uma “mulher-orquestra”: além de esposa devotada, mãe de quatro filhos, e excelente administradora da casa, foi advogada, professora e autora de renome internacional, atuando em Direito Internacional Público e Privado. Foi a primeira brasileira a ocupar a Direção de uma Faculdade de Direito federal, de 1969 a 1973, e foi também a primeira mulher gaúcha a participar, como Assessora Especial, da Delegação brasileira na Conferência da ONU, em 1968, além de ter sido a única Presidente mulher da Comissão Interamericana de Direitos Humanos da OEA até então, em seus 30 anos de existência. Contratada pela Agência Internacional de Energia Atômica da ONU, já tinha representado a América Latina no comitê de juristas, criado para a discussão sobre o lançamento de resíduos radioativos nos mares, entre 1962 e 1963. Poucos, mas não pequenos, detalhes, só para exemplificar sua estatura. Muitíssimo mais se poderia dizer sobre ela, mas creio que, por ora, bastam esses exemplos, até porque sempre é por ela, por ambos, que estou aqui, mas, hoje, é mais por ele.

    Porém, de novo, para lembrar um, é preciso lembrar o outro. Mas, enfim, para terminar, muito acima e muito além de tudo o que falei sobre Mozart Victor Russomano, devo acrescentar ainda que tive nele o meu maior Amigo. Era assim que ele assinava sua farta correspondência para nós, os filhos: “Do Pai e Amigo”. E foi exatamente isto que ele foi. E é como sempre será lembrado. Cinco anos se passaram de sua partida. Cinco anos de saudades. Às vezes, em momentos de descuido, ainda espero, assim, sem refletir, que o telefone que toca seja ele, chamando de Pelotas, o que fazia duas, três vezes ao dia, nas suas últimas décadas de vida. Infelizmente, nunca mais vai ser.            

    E que falta tão pungente!

    O que mais pode ser dito sobre o que hoje ainda sinto sobre ele? De um jeito que todos possam saber? Só parafraseando o meu primo materno Dondon, em seu lamento de tantos anos atrás, quando faleceu sua mãe, outra de incontáveis pelotenses dignos da maior admiração, dona Mercedes Maciel Moreira, como foi citado por meu pai em sua Crônica “Maciel Moreira”, publicada no Diário Popular de 17 de abril de 2005, “eu vejo-o hoje como o contemplava outrora. Sinto-o ainda como o sentia então”. Sim, eu o vejo hoje como o via outrora, como um Pai com P maiúsculo. E ainda o sinto – e sempre vou sentir – como o sentia então, como o melhor Amigo, com A maiúsculo, que se pode querer ter tido para levar pela vida.

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    Fonte: Mônica Beatriz Corrêa Meyer Russomano

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